Consumo ressignificado

Consumo ressignificado

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A inteligência coletiva do planeta clama por sustentabilidade, por governança e por cuidados com o meio ambiente, mas, como sempre, os assuntos desafiadores ligados às mudanças radicais só ganham tração quando há urgência ou a real necessidade se apresenta, como acontece agora nos tempos de pandemia.

Que o mundo seria disruptivo em sua forma de existir não havia dúvida. Os profissionais ligados a “Estudos de Futuros” não estão chocados nem surpresos com o que está acontecendo no mundo. Claro, com os efeitos colaterais da pandemia sim, mas não com as mudanças aceleradas.

Hipóteses e tendências estão se confirmando, e o que já sabíamos agora se tornou realidade: o planeta está renascendo, a sociedade já mudou suas premissas e é ela quem estabelece hoje o novo tom do consumo planetário.

Há vários mundos paralelos coexistindo, e todos fomos colocados no mesmo patamar de necessidades básicas. O que muitos já experimentaram nos anos anteriores, agora se tornou a realidade para a maioria dos brasileiros: a vida no delivery. Tudo pode vir até você de alguma maneira.

A pandemia nos fez aceitar o que pode se tornar o novo razoável na vida futura, e que, por causa de crenças limitantes e mantras de que algumas coisas são insubstituíveis, vamos levando uma vida mais complexa do que o necessário, mais cara e insustentável para os dias de hoje.

As empresas digitais já entenderam este novo comportamento social, e conectaram seus serviços e produtos àquilo que o cliente quer, sem desprezar premissas de negócio e expectativas de stakeholders, que ainda insistem em retornos robustos de curto prazo, o que já não é mais possível.

O QUE DESEJA ENTÃO O CONSUMIDOR MODERNO?

Praticidade – que tudo seja de fácil acesso e que seja muito intuitivo, de fácil compreensão;

Agilidade – que as empresas sejam ágeis em todo o processo e nas diferentes respostas ao consumidor;

Preço justo – ninguém mais está disposto a pagar valores excessivos em um mercado que tem cada vez mais produtos de qualidade por preços adequados ao bolso da maioria dos consumidores;

Qualidade – nada mais justifica produtos de qualidade questionável e pouca durabilidade;

Possibilidade de customização – que as empresas conheçam o seu consumidor e entendam as suas necessidades sem insistir em vendas desnecessárias;

Proatividade – que as empresas ofereçam produtos melhores com preços mais econômicos;

✅ Proximidade – que as empresas acompanhem a vida e as questões de seus consumidores e que estejam atentas às mudanças constantes e ao perfil recorrente dos consumidores;

Atendimento imediato – canais de atendimento eficientes, com poder de decisão para resolver os problemas e as dúvidas dos clientes de forma aberta e próxima. Atendimento pessoal não robotizado;

Ajuda para tomar as decisões – pessoas disponíveis para ajudar o consumidor a decidir e a escolher o que melhor lhe atende;

Paz e tranquilidade – ser surpreendido por novidades bem elaboradas sem que isso vire uma perseguição ao cliente com algoritmos insistentes e inconvenientes.

Que tudo venha em casa, a curto prazo, com garantia de troca rápida e devolução ou compensação em caso de não satisfação.

Tenho muitas dúvidas sobre a continuidade dos shopping centers, das redes gigantes que monopolizam o mercado, de empresas globais que conduzem o consumo para onde mais interessa ao capitalismo predador.

Cornelia Daheim, futurista alemã, fala muito bem de Consumer Shift, e mostra como os mercados mudam a sua rota e quão atentas as empresas estão aos macromovimentos de seus clientes.

Futuristas mapeiam sinais fracos, que chamamos de weak signals, os quais mostram a causa da mudança e como ela evolui na linha do tempo do presente e do futuro; rastreiam paradigmas que estão sendo modificados no longo prazo; e ampliam a visão de quem precisa estar atento para se antecipar ao que ainda não emergiu.

As empresas atuais existem para servir a sociedade, garantindo que uma cadeia produtiva de valor seja respeitada, considerando a ética, a governança e a sustentabilidade, para que os melhores produtos cheguem ao consumidor cada vez mais minimalista.

Durante a pandemia, o consumidor decide especialmente pelo básico, e obviamente adia todo o restante que, neste momento, se tornou supérfluo.

Mediante um futuro instável e absolutamente imprevisível, ninguém arrisca comprar mais do que precisa, e isso traz ao consumo uma consciência expandida. Mostramos que ainda desperdiçamos muito e que somos muito iludidos pelos mantras de marketing ligados a declarações enganosas, que sugerem que algum tipo de consumo pode transformar a identidade de alguém em algo de sucesso.

Mulheres são as grandes consumidoras do mundo. Tomam decisões na gestão da casa, investem cada vez mais em seu bem-estar, em produtos de beleza e em desenvolvimento. Estudam muito e têm um papel cada vez mais importante na sociedade global.

Famílias mudaram radicalmente, e penso que os serviços de delivery, de organização da casa em relação à praticidade, o esforço coletivo de manter a casa a partir dos membros da família, não mais via contratação de empregados, trouxe uma nova possibilidade doméstica: todos cuidam de tudo e todos desperdiçam menos.

Como podemos olhar para o consumo no futuro emergente?

Quem estará consumindo produtos e serviços no futuro? Onde e como será este consumo? Quais poderão ser os valores que impulsionam o consumo no futuro? Como novos modelos de economia influenciam o consumo no futuro que estamos imaginando?

A disciplina de Foresight leva em conta padrões de mudança, sinais de futuros, possibilidades, projeções, imaginação e várias etapas e formatos diferentes. Considera experiências anteriores, sinais sociais, tecnológicos, culturais e políticos, e coloca todas estas informações em um framework organizado que permite a estrategistas e decisores de negócio tomar suas decisões de forma antecipada, considerando o cenário atual, a adaptação emergente e a criação de algo novo, ou de mudanças radicais em seu segmento.

Disrupção é inteligência antecipada de negócios, e é isso que costumo afirmar e promover nas empresas nas quais construo estratégias de futuros.

 

REFERÊNCIA:

WEIGEL, Jaqueline. Consumidor Moderno. Consumo Ressignificado. Disponível em <digital.consumidormoderno.com.br/consumo-ressignificado-ed255/>